Faltam -102 dias para o 13º Intereclesial CEBs!!!

13° INTERECLESIAL DAS CEBs

23/01/2014 - notícias - Criado por: Thales Emmanuel.

Entre os dias 07 e 11 de janeiro de 2014, no sertão de Cariri, mais precisamente no município de Juazeiro do Norte-CE, mais um vagão se acoplou ao trem das lutas populares que se fazem presentes entre o povo oprimido animado e inspirado pelo exemplo vivo de Jesus de Nazaré. Jesus, o camponês-carpinteiro, o inquieto e indignado jovem que sentiu em suas entranhas, como uma mulher em trabalho de parto, o sofrimento de todo um povo esmagado por interesses de impérios, de grandes proprietários, locais e estrangeiros.


O incômodo interno, causado por esse sentimento de compaixão, foi tão intenso, que se acomodar ou se adequar à ordem das coisas estabelecidas em seu tempo tornou-se para ele impossível, mesmo quando, diante da tortura e da morte, precisou reafirmar o projeto de vida defendido, uma ruptura, um parto de novas relações humanas, de novas estruturas, de nova sociedade.


Em Juazeiro do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, durante cinco dias, com quase quatro mil pessoas reunidas, o Intereclesial das CEBs foi importante para que, entre outras importantes coisas, sentirmos como se encontram nossos passos na caminhada. Para que avanços, retrocessos e desafios sejam enfrentados da forma mais consciente possível no próximo período, que já se segue.


Ao avaliar o significado do 13° Intereclesial das CEBs para o fortalecimento das lutas populares e o projeto de construção do Reino, que alguns companheiros e companheiras chamam de Bem Viver e outros/as camaradas de Socialismo, é importante compreender as CEBs em suas contradições, apontando desvios e propostas de superação. Vale lembrar o que ensinou certa vez uma valorosa irmã consagrada: “Nem tudo que se diz CEBs é CEBs. Estar no meio do povo não é o mesmo que estar para o povo”.


Nas terras de Pe. Cícero, aprendemos que pessoas admiradas não estão isentas de contradições. Na caminhada dos mártires, momento místico-celebrativo em que exemplos como o de Chico Mendes e Irmã Doroty renovam o compromisso dos/as participantes com as causas populares, um dizer do padim acabou por destoar o sentimento e identidade das CEBs: “Eu não combino com revolução”. Salvo os sussurros e o embaraço mental que se sucederam a leitura da frase, em plenária e no microfone, foi o pastor metodista, Cláudio Ribeiro, de São Paulo,que, de forma enfática, lembrou-nos que tais ideias não podem ser reproduzidas, pois, como atenta: “As CEBs nasceram para a revolução”.


O tema da participação da mulher na Igreja e na sociedade não foi esquecido nas plenárias do encontro, muito embora secundarizado, a se considerar o clamor de sua problemática. A crítica a opressão histórica que ocorre em ambos os espaços teve o tom da sensibilização, da solicitação à hierarquia institucionalizada por mais oportunidades, mas houve quem colocasse o ponto de maneira mais direta e incisiva, como a Ir. Téa Frigerio, assessora da ampliada nacional das CEBs,que em sua curta exposição alertou para o significativo engajamento feminino, desde o Antigo Testamento até a formulação do projeto de construção do Reino trazida com Jesus, com o papel de Maria em sua educação e na participação direta sua e de outras companheiras na luta popular por justiça e igualdade. A combinação de mulher com revolução foi o mote usado pela irmã em seu discurso.


A orientação sexual e afetiva foi assunto reforçado em falas, ainda que de forma superficial e apenas pontual. A homofobia recebeu repúdio coletivo através de aplausos da plenária quando as poucas abordagens críticas foram feitas.


Algumas análises conseguiram dar um indispensável recorte de classe à problemática social e religiosa, apesar de não recorrer ao uso do termo e tendo que revezar com várias intervenções cujo grau de abstração mais embaçava que revelava a realidade. E revelar o que está encoberto é de suma importância para um/a discípulo/a de Jesus, como demonstrou Frei Carlos Mesters, expondo a público a careca de Frei Gilvander, ao retirar-lhe o chapéu.


Benedito Ferraro,assessor da ampliada nacional das CEBs, chegou a citar que a aproximação com outras religiões e igrejas cristãs não poderia fugir aos marcos da justiça e da profecia. Uma espécie de ecumenismo em prol da construção do Reino e não meramente ajuntamento de siglas.


Em sua espremida exposição, por conta do atraso para o almoço, Pe. Júnior Aquino, do Ceará, alertou para o que, em suas palavras, seria o verdadeiro significado da “Igreja de Jesus”. Disse ele: “Quando o Estado reprime e despeja um acampamento Sem Terra, é a igreja de Jesus que está sendo reprimida. Quando o latifúndio assassina um índio, é a Igreja de Jesus que está sendo morta”.  Lembrou ainda que quase todas as roupas usadas no encontro carregavam o nome das CEBs, mas poucas identificavam as causas defendidas pelas comunidades de base, como a Reforma Agrária. Concluiu com a mensagem de que as CEBs não cumpririam seu propósito estando voltadas só para si mesmas, sendo imprescindível seu engajamento nas lutas populares.


E por falar em índio, não faltou o registro crítico da ofensiva neodesenvolvimentista encabeçada pelas burguesias interna e estrangeira, com seus congêneres de governo, aos povos indígenas. A atual investida de morte foi considerada a mais sangrenta da história brasileira pós-período colonial.


Os chamados grandes projetos também foram situados em sua invasão aos territórios quilombolas. Representantes de religiões de matriz africana avaliaram negativa e enfaticamente o tratamento conferido por igrejas cristãs à sua espiritualidade: “Somos mais do que uma roupa africana! Não somos folclore! Somos religião!”.


No encontro, o tema da juventude, a exceção da plenária menor destinada ao debate específico da problemática, talvez não tenha ecoado na proporção merecida, sobretudo por vermos na atualidade o protagonismo que jovens vêm desempenhando nas mobilizações de massas, no Brasil e no mundo.


Na grande plenária, batizada de Caldeirão, as críticas feitas se centraram na pouca oportunidade de participação dada à juventude na estrutura eclesial e no extermínio de jovens. Deixou-se recorrentemente de enfatizar a cor, a renda e o território que a matança atinge com prioridade, bem como a culpabilidade do Estado capitalista e seus reais interesses ao promovê-la; perdendo-se, com isso, a perspectiva de classe que a questão exige. Como disse um jovem rapaz na Fila do Povo: “Precisamos identificar bem nossos inimigos”.


A juventude popular organizada no encontro, valendo-se da característica iniciativa criativa e de gratas surpresas, forçando um pouco mais a barra, quem sabe, não conquistasse a projeção necessária. Fica a dica.


A chamada “religiosidade popular”, que outrora, com o afastamento de Pe. Cícero das funções eclesiais, passou a ser vivenciada e desenvolvida de forma mais ou menos independente pela população devota mais empobrecida, permeou todas as atividades do Intereclesial, do tema do encontro à celebração de encerramento. A disputa histórica pelo verdadeiro significado da missão de Jesus foi ilustrada com a tensa relação entre igreja-templo e igreja-caminho.


Na visita ao Horto, adentrando à antiga residência do padim, deparamo-nos com inúmeras estatuetas de madeira. São seios, pernas, braços, cabeças, simbolismos de graças alcançadas em promessas feitas pela interseção do padre das romarias sertanejas.


Mas quantas pernas de carne e osso se definharam ou foram amputadas à espera da obra divina? Quantos filhos e filhas da política da seca, das cercas, não agonizaram e sofrem ainda hoje até a morte sem que seus resistentes pais de carne, osso e espírito alcancem a graça de um atendimento médico-hospitalar adequado? Quantas pessoas mais, doenças curáveis irão aleijar ou enterrar?


Nas CEBs, o enaltecimento do que é feito pelo povo não pode ser apartado da pergunta: Em que medida isso se volta contra ou a favor do próprio povo e de sua causa de libertação? Lembrar Dom Hélder nunca é de mais: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo; quando interrogo pela causa da pobreza, chamam-me de comunista”.


É evidente que o Intereclesial das CEBs não se resume a esse curto relato. Vivências outras tiveram uma profunda sintonia ao que acreditamos ser a causa do Reino. Houve, porém, muitas que em nada se assemelharam à missão de Jesus, entrando inclusive em diametral oposição.


É fato dado que páginas e mais páginas, ainda que escritas no mais alto grau de comprometimento, jamais conseguirão descrever fidedignamente, por exemplo, o sentimento de acolhida impregnado às famílias que nos receberam, “desconhecidos e desconhecidas” como chegamos, em suas casas. Como transformar em letra a espontaneidade constante de danças e abraços afetivos? A vivência de partilhar o alimento comum? Para conhecer esse pão de igualdade, só mesmo degustando-o.


Para finalizar, é fundamental não esquecermos: “Viemos pra incomodar!” “Ou Reino de Deus ou Reino de Mamóm”. “Socialismo ou barbárie”. Como fermentos na massa e porta-vozes, porta-corpos e porta-espíritos da profecia, lembremos sempre o que disse a Mãe de Santo no último dia do encontro: “Não me calarei!”


 


*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).

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